quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Pinball fosforescente


Se você olhar para esse pedaço de papel e achar que as letras estão se mexendo, e achar que as letras começam a se embaralhar umas às outras, e se tiver a impressão de que as letras começam a se acender e a se transformar em luzes pequenas e essas luzes se transformarem em pontos luminosos, e se esses pontos de luz subirem até o céu virando um monte de estrelas e se essas estrelas caírem no chão do banheiro e se você achar que por estar no meio dessas luzes, está dentro de uma máquina de pinball, é bem provável que você esteja bêbado.

Mas se você não sair do banheiro dos homens agora e se não entrar no banheiro das mulheres com as calças arriadas logo em seguida, você ainda não está bêbado o suficiente.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Se o mundo fosse um banheiro


Você sonha que está pelado no meio da multidão. Todo mundo vestido. Só você pelado.
É ruim, é desconfortável. Você até sabe que é um sonho, mas mesmo assim o desconforto de estar naquela situação supera a idéia de que é só um sonho.
No banheiro não. Você abaixa as calças, tranqüilo. Ao seu lado, um cara, também de calças abaixadas, não demonstra nenhum desconforto. E mais ao lado, outro cara, também de calças abaixadas, também tranqüilo.
Conclusão: o desconforto do sonho não reside no fato de você estar nu. O desconforto se origina no fato de estarem todos vestidos. Aí você percebe que se todo mundo estivesse pelado, como num banheiro, não haveria esse desconforto.
Você termina de mijar. Sai do banheiro com as calças arriadas. Tira definitivamente as calças, para poder caminhar melhor. Você está nu, andando pelo bar. O garçom passa por você e, por ter uma bandeja na mão, não consegue reagir enquanto você abaixa as calças dele.
Você tira a camisa e parte nu para mais outra vítima.

Todo mundo nu: é o seu lema

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Diálogo entre o mijante e o cara que escreveu o texto que o mijante está lendo


Sabe quando você fica com vergonha pelo que o outro tá fazendo?
–Não.
–Não?
–Não.
–Sabe naquele programa do Silvio Santos que o cara se declarava para a mulher na frente das câmeras...
–Sei.
–Então. Dá a maior vergonha pelo cara. Você na sua casa, e o cara lá, se declarando para a mulher. Você não faz parte da cena, mas mesmo assim você fica com vergonha. Sabe?
–Acho que sei. Aliás, sei. Sei sim.
–Então. Isso é vergonha pelo outro.
–Entendi. E daí?
–E daí que vendo você aí, mijando, com essa cara de otário, lendo esse papel.... Tá me dando vergonha. A mesma vergonha que eu sentia quando via os caras se declarando com aquelas caras de babaca para as namoradinhas no programa do Silvio Santos.
– E você, seu mané? Acha que é muito original porque fica gastando o teu tempo escrevendo essas baboseiras pra colar em banheiro achando que vai causar alguma comoção em alguém ou, sei lá, ficar famoso? Vai fazer alguma coisa que preste, otário.
– Essa sua revolta muda só aumenta a vergonha que eu sinto.
– Cara, guarda essa vergonha de merda, esse teu texto de merda, essa sua ideiazinha de merda, essa sua pretensão de merda em fazer alguma cosa diferente e enfia naquele lugar.
– Lugar de merda é no banheiro.
– É onde você deveria estar, seu merda.
– Mas é você que está no banheiro. Então por esse raciocínio o merda é você.
– Tá. Tá. Tá bem, seu merda.
– Hein?
–Nada. Esquece.